Neste ano, mais de mil cidades brasileiras trocam de comando. É uma grande oportunidade para se discutir os grandes temas ecológicos urbanos. O que é uma cidade sustentável? O que podemos fazer pelo futuro dos lugares onde vivemos?
Muitos estados e cidades costumam planejar a transição para a sustentabilidade. O Estado de Washington, por exemplo, construiu um projeto para um prazo de 15 anos. O ideal é mesmo um espaço de tempo mais longo, pois as soluções não são rápidas. Nem poderiam ser. Leva tempo, mudar mentalidades e transformar o espaço urbano.
Embora grande parte dos candidatos esteja pensando em votos ou no seu esquema de propaganda, a oportunidade eleitoral é excelente para que possamos colocar a questão da sustentabilidade, analisando exemplos do exterior e formulando propostas que se adaptem ãs características nacionais.
É contraditório formular projetos de 15 anos para pessoas que terão mandato de apenas quatro anos. Se considerarmos a cultura da política brasileira, onde o eleito tende a desfazer todo o trabalho do antecessor, tenderemos ao pessimismo.
No entanto, boas idéias implementadas em sua fase inicial podem ganhar o consenso e sobreviver aos novos mandatos. Um exemplo disto, no plano federal, é a campanha contra a Aids, que ganhou reconhecimento externo e não pode ser alterada, na sua essência.
O objetivo do debate deve ser a formulação de 100 sugestões que aplicadas nas cidades brasileiras, respeitando suas características, podem orientar os eleitos e criar um novo parâmetro por meio do qual, ao lado do índice de desenvolvimento humano, poderemos aferir, a cada momento, o rumo do crescimento.
Que idéias mestras estariam atrás da tese da sustentabilidade? A proposta é reduzí-las a dez para que cada uma delas contenha sugestões práticas para prefeitos ou mesmo vereadores interessados em apresentar projetos inovadores.
Não é intenção desse texto inicial alinhar propostas que devem resultar de processos de discussão. Mas, desde já é óbvio que as grandes cidades precisam economizar energia, precisam dar um uso múltiplo ao seu espaço (moradia, comércio, indústria limpas) para reduzir o grande número de viagens, precisam economizar água de chuva, precisam economizar terra, partindo para construções mais compactas, precisam criar mercados para material reciclado, ampliar as opções de transporte, tomar as decisões previsíveis através de uma clara política de sustentabilidade.
O que colocamos hoje é apenas uma proposta de trabalho. Ela é prioridade do mandato, neste ano de 2004. Estamos abertos para conversar com todos. A oportunidade das eleições coloca para nós esta imensa tarefa, algo que os ecologistas, preocupados com a floresta, com os animais em extinção, complexas leis de biossegurança, não puderam ainda se preocupar adequadamente.
Mora na cidade a maioria da população brasileira. Nelas reside também o enigma da sustentabilidade. Do jeito em que o progresso avança, dificilmente serão lugares habitáveis se não houver, a partir de agora, uma lenta e constante inflexão para um novo modelo.
Fernando Gabeira